À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

24

de
julho

Tupi — da série Pequetita

 

TUPI

Hoje acordei bem cedo.
Vou pra casa da vovó!
Vou feliz e vou sem medo,
Vou levando o meu totó.

Tupi é meu melhor amigo.
Um vira-lata legal!
Quando o peguei no abrigo,
Chamava-se Tiquinho de tal.

Este nome não lhe cabia,
Já que era bem grandão!
Musculoso, ele se fazia
Respeitar na multidão.

Tupi, um nome guerreiro.
De índio, bem brasileiro!
Foi assim que o batizei,
No dia em que o adotei.

Com Tupi vou a todo lado,
De minha casa para escola,
Da pracinha pro gramado
Onde sempre jogo bola.

Vovó gosta das visitas
Que eu e Tupi lhe fazemos.
Prepara uma mesa bonita,
Com quitutes que comemos.

Tupi gosta do passeio.
Grunhe e corre, late e pula.
Nem um pingo de receio,
Vovó lhe incentiva a gula.

Truques e truques ele faz:
Pára e senta, deita e rola.
Quer bolachas da sacola
Que vovó sempre lhe traz.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

22

de
julho

A Borboleta Amarela — da série Pequetita

 

A Borboleta Amarela

A borboleta amarela
pousou no beiral da janela.
Abriu suas asas listradas
cansadas de muitas estradas
e dormiu.

Ficou um bom tempo parada
até se sentir renovada.
Limpando as patinhas da frente,
jogou-se pelo muro bem rente
e seguiu.

Lá foi ela pelos ares
saltitando em ziguezagues.
Pousou na flor do caqui,
pulou daqui para ali
e partiu.

Por entre a grade de ferro, passou.
Por trás dos ramos floridos, voou.
Parou no banco da praça,
eis que um gato lhe ameaça…
e fugiu.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

22

de
julho

Quem é? — da série Pequetita

 

Quem é
aquele homem alto,
que me abraça forte,
com muito carinho?
Quem vem me acudir
num salto,
que me deseja sorte
e me chama filhinho?

Meu Pai —
é seu nome completo,
Não tem sobrenome,
nem para o carteiro.
Com ele, eu me sinto repleto,
ando bem ereto, cheio de afeto.
Pra mim ele é valioso,
Se dá por inteiro,
este homem discreto.
Amoroso, muito circunspecto,
ele vai à luta,
samurai guerreiro.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

Homenagem ao Dia dos Pais.

18

de
julho

O Gaúcho — da série Pequetita

O Gaúcho, sd
José Franz Seraph Lutzemberger (Brasil 1882- 1956)
Aquarela sobre papel 18 x 29 cm

 

O GAÚCHO

A minha caixinha mágica
Tem oito lápis de cor,
Folhas de papel branco
E um bom apontador.

E só levantar a tampa:
Vejo um homem a cavalo.
Parece trotar no pampa
Ouvindo o canto do galo.

Com o lápis azul eu faço
A grande parte do céu;
Com o castanho eu traço
Cavalo, bota e chapéu.

O verde fica pra grama,
Capim alto que nem cana.
No canto amarelo o sol
Brilhando que nem farol.

O vermelho é do lenço
Que ele usa no pescoço;
A calça é de pano preto;
Na garupa leva o almoço.

Por fim no canto direito
Do desenho que surgiu
Assino meu nome bem feito
Com data de vinte de abril.

©Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

2

de
março

O Vacilo

Meditação do Tempo 2 , s.d.  *
Adílson Santos ( Poções, Bahia, 1944 )
Óleo sobre tela, 90 x 70 cm

 

Há tempos esta imagem me assombra:
Deixa de lastro um gosto amargo
De terror que não me larga.
O sofrimento, a dúvida, o vacilo,
O nano segundo do pavor de sua carga,
Foram em geral mantidos em sigilo,
Mostrando o pai tranqüilo, com seu arco,
Herói-galã, hipnotizado no seu marco,
Imolador-progenitor como Abraão,
Infrator e defensor de atuação,
Olhos fixos na maçã, seu talismã.

Os séculos de lenda se calaram
Sobre o segundo protagonista desta história,
Que aflito, vítima de grito preso e inaudito,
Vê-se só, sem asilo ou escapatória,
O horror, capturado na garganta,
Mudo, no momento maldito e infinito
Em que a febre de paúra se agiganta.
A palidez, a nudez de seu tormento,
Representada nos olhos sem alento,
Mostra o pavor interno, sutil e freudiano.
Trai a confiança descrita pelo mito,
O heroísmo explícito e solícito.

É o retrato da vítima calada, do réu,
Da ovelha imolada a contragosto,
Ciente do acaso, das variações,
Das incertezas do pai, Guilherme Tell.
Estampado em seus olhos,  em seu rosto,
Está o relâmpago infinito da dúvida,
Exposto claro, explícito,  pela brecha
No lençol que o protegia do evento.
Foi tão rápido quanto o vôo dessa flecha,
Mas o fugaz foi congelado no momento.

© Ladyce West, 2/3/2008, Rio de Janeiro

 

 

* Quadro leiloado no Rio de Janeiro em abril de 2007, 
   Valdir Teixeira, Leiloeiro Público

13

de
fevereiro

O Mangueiral

 

A ilha verde-maduro
Frente ao capim-melado,
Anunciava o mangueiral:
Um escuro manchão largo,
Florão pardo,
Incrustado
Em alcatifa acetinada,
Verdejante,
Bezerrada,
Acantoada nas entranhas
Das montanhas de Vera Cruz.

De perto, o aroma úmido,
Prenhe,
Estagnado.
Pesado e doce,
Apodrido e embriagante,
Chegava com a brisa do campo;
Impregnado
Nas barbas-de-bode –
Sementes pulverizadas ao vento.
Voava.
Era o cheiro das Carlotinhas douradas,
Pintadas —
Rubricas escuras
Nas cascas maduras.
Escondidas, caídas, obscuras,
Semeadas ao léu.
Troféu de morcegos, araras,
Periquitos, passarinhos e micos.

Debaixo das copas cerradas
Ao lado dos troncos torcidos,
O perfume asfixiante.
Ofegante.
Repugnante e fascinante.
E se entranhava nos cabelos,
Nas roupas,
Nas palmas de nossas mãos,
Ao espremer suas polpas.
À moda dos micos macruros,
Também nós, em orgia,
Batendo, chacoalhando os ramos —
Sôfregos —
Íamos colher os ovos dourados,
Os frutos melados.
Comê-los, chupá-los, devorá-los.
Arrancávamos suas peles com os dentes,
Vorazes.
À procura de um espasmo iludente,
Orgasmo nubente
E nutriente.

Só então sentíamos ter chegado à fazenda.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

31

de
dezembro

ESTRELA GUIA

 

Apagou-se a minha estrela-guia.
Seu brilho diminuiu
Aos poucos, no dia a dia.
Hoje,
Não agüentou o corpo;
A alma tampouco se deteve.

Aleluia! Aleluia!
Cantaram os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Gritaram em festa e escarcéu!

Foi a minha estrela-guia
Na infância, na adolescência;
Do berço à idade adulta.
Trazia um apoio de mãe
De amiga, de tia
Dado em silêncio,
Como quem ausculta,
E sem consulta
Recomenda e encaminha.

Aleluia! Aleluia!
Cantam hoje os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Hoje há festa com escarcéu!

Foi minha confidente,
Minha guia, meu modelo,
Mostrou-me a diretriz
Da vida,
Com seu silêncio eloqüente,
A opinião segura,
Aparente.
Tal qual sua assinatura,
Que fazia firme,
E de postura coerente.

Aleluia! Aleluia!
Cantam hoje os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Vai ter festa com escarcéu!

Felizes os que a conheceram
Como eu,
Aqueles que a amaram
Como eu,
E a quem ela amou,
Como eu.

Por isso há festa no céu!
Os espíritos se alegram,
Vai chegar gente querida.
Enquanto nós tocamos a vida,
Pensando no beleléu,
Sentimentos jogados ao léu.

Aleluia! Aleluia!
Que se faça grande escarcéu,
Com fogos iluminando o céu!
Aleluia!

Neyde Pompêo de Barros Kanto 15/12/1928 – 31/12/2007

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2007.

26

de
novembro

Fino Acabamento

 

Faltam em mim o fino acabamento,
A sofisticação no gesto controlado,
A distante discrição de sentimento,
A emoção calma e moderada
Necessários para o julgamento
Para a consideração mais refinada
Do arranjo de flores recebido
De presente, organizado, arrumado,
Encarcerado na forma arredondada
E bem podada de uma esfera,
Pousada sobre um vaso de cristal.

Eram rosas de estufa, pobrezinhas,
Que nunca conheceram a liberdade,
Nem a chuva, nem o vento, nem o sol.
Suas vidas foram sempre manejadas
Por mangueiras, persianas e aerossol.
Nunca souberam o que era um arrebol,
Nem ouviram um pintassilgo ou rouxinol.
Eram vermelhas, pequeninas, quase em botão,
Naqueles moldes associados à paixão.
Mas, cortadas, amarradas e aramadas,
Entrelaçadas aos cabos de cedrinhos,
Sem folhas, hastes cortadas, sem espinhos,
Não poderiam representar nem se quisessem
O abandono, a entrega e o desalinho,
A burla, o traspasse da razão,
Essenciais para expressão desta emoção.

Sou mais rústica em gosto e acabamento.
Abro os braços sem pudor pros meus abraços.
E as emoções expressadas em meu rosto
Vêm impulsivas, rebeldes, a contragosto.
Não consigo me esquivar dos sentimentos,
Preferindo mergulhar num só momento
Na emoção que engolfa o coração
Desordenada, impulsionada, arrebatada.
Prefiro minhas flores variadas.
Parecendo terem sido coletadas
Num rebelde buquê, de sopetão.


© Ladyce West, Rio de Janeiro, Novembro de 2007

26

de
novembro

Distingo de Marília as mãos formosas BOCAGE

XXXI

De cima destas peanhas escabrosas
Que pouco a pouco as ondas têm minado,
Da lua com reflexo prateado
Distingo de Marília as mãos formosas.

Ah!  Que lindas que são, que melindrosas!
Sinto-me louco, sinto-me encantado;
Ah! Quando elas vos colhem lá no prado
Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!

Deuses! Céus!  Tudo o mais que tendes feito
Vendo tão belas mãos me dá desgosto;
Nada, onde elas estão, nada é perfeito.

Oh!  quem pudera uni-las ao meu rosto!
Quem pudera apertá-las no meu peito!
Dar-lhes mil beijos, e expirar de gosto.

Manuel Maria Barbosa du Bocage   (1765-1805)

23

de
novembro

Gugu

 

 

Enfaixaram minha mão esquerda.
Com desvelo.
Dos dedos ao cotovelo.
No registro,
Proibiram movimento,
Principalmente sinistro.
Duas semanas, sub-humanas.
Até sararem os ligamentos.
Daí em frente, adestramentos
Para voltar a lembrar dos movimentos.

Fiquei coto na canhota, embalsamada viva.
Braço engessado é símbolo de travessa meninota.
Na minha idade, no entanto, só o silicone
Me ajuda a não parecer velhota.
Por conta de tanta impotência,
De precisar de assistência
No vestir, banhar e pentear,
Lembrei-me ontem do Gugu,
Aquele bebê bonsai adotado por Popeye.
Que, sem pernas ou pés visíveis,
Se arrasta. E entusiasta,
Saboreia os hambúrgueres voadores do Dudu,
Quando e se estes se descolam do teto,
Por completo.

Não gosto de ser Gugu.

Novembro/ 2007

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2007

Posts mais antigos »

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ameiavoz.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.