À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

30

de
novembro

Retorno

 

Casa brasileira.  Foto: Ladyce West

Um lago sereno: águas escuras refletem nuvens do céu.
Não há sons, nesta brilhante manhã.
É fim de primavera, dezembro bate à porta.
Me deixo cair absorta, examinando o local.
Mais cedo, uma algazarra interrompera esta paz sensual.
Um bando de maracanãs, cortara o céu por segundos,
Papagueando, fervilhando, virando o mundo,
Até se acomodar, mais longe nos buritis do horizonte.
Fez-se então silêncio. Absoluto.

Cerro os olhos e devaneio,
Rendida pela letargia da alta manhã.
De encontro a um tronco, recosto e deito.
Descalça, quero sentir o solo, a terra.
Abro os braços, enlevada e me entrego,
Tateio pedrinhas, grama, folhas secas.
Comungo com o meu mundo em enlace núbil.

Ouço o zumbido de insetos,
Formigas exploram meu pé,
Há um vago perfume de goiabas no ar.
A volta à terra natal é sestrosa e prazerosa.
Tudo se relaxa e encontra um lugar
No meu quebra-cabeças pessoal de emoções.
Saudades são, às vezes, indefiníveis:
Um cheiro de fruta, o grito da araponga,
A manta do sol que esquenta e enleia.
A sombra da mangueira, um cheiro de capim tropical.

Estou em casa, afinal!

© 2006, Ladyce West, Rio de Janeiro.

29

de
novembro

Salgueiros chorões

 

À volta do lago, árvores anciãs.
Salgueiros chorões curvam-se
Para a superfície espelhada,
Azulada, recortada do céu azul refletido.
Estas árvores, com seus troncos artríticos,
Grossos e tortos, parecem procurar
Na profundeza das águas escuras,
A confirmação de suas existências contemplativas.

Voltadas para si mesmas, talvez até narcisistas,
Magnetizadas, atraídas,
Por suas próprias imagens espelhadas,
Parecem aguardar um vento,
Uma brisa leve, um movimento…
Que as faça dançar…
Mover seus ramos flexíveis,
Suas vastas cabeleiras verdes.

Aí sim, poderiam, então,
Também ranger seus troncos,
De alegria, tristeza ou saudade,
Seguindo a vontade do tempo,
O ritmo da brisa, do vento.

Mas quietos, estes salgueiros de milhões de folhas,
Que beijam as águas em silêncio,
Que permanecem em repouso paciente,
Formam uma grande cortina espessa,
Como brocado grosso, com seus ramos pesarosos.

Imóveis trazem um ar de paz à paisagem.
Fazem o dia de mormaço banhado em perspiração,
Inerte, imóvel, arrastado, sonolento.
Retratam o ar pesado abafado e úmido, sem viração.
E nos convidam à lerdeza coletiva, à lentidão
De movimentos, de passos, ações e pensamentos.

Lembram: o alto verão não é hora para desgastes.
Que a natureza sossega, repousa, cochila e dorme,
Amadurece, se poupa, guarda forças, faz estoque,
Na espera  dia a dia, pela troca de estação.

© 2006, Ladyce West, Rio de Janeiro.

28

de
novembro

Este lago sereno

 

Foto: Ladyce West, JB, RJ


Este lago sereno exerce uma atração,
Uma obsessão misteriosa,
Alucinante em mim.
Um desejo de mergulhar na sua profundeza,
De me perder em seu mistério,
De desaparecer na paisagem tranqüila,
Pintada em suas águas sombrias,
Sossegadas, calmas e imóveis.
Seu silêncio me hipnotiza e seduz.

Este lago manso me mesmeriza
No tratar invertido da natureza:
A dupla imagem, a ambigüidade.
Céu e água.   Água e céu.
O reflexo do vôo de um pássaro no ar…
Ou seria um peixe fugidio a nadar?
Verso e reverso. Corpo e alma.
Inferno e paraíso.
Meu mundo unido num só horizonte.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro

27

de
novembro

Jantar al fresco

 

Florada na Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ.

Foto: Ladyce West

De manhã, pensei:
Um jantar al fresco.
Para celebrar,
Compartilhar com a natureza,
Mais uma passagem.
Hora de dar adeus ao inverno.
De abrir os braços à inovação.
Um brinde à criatividade,
Aos novos rumos.
Votos para a boa gestação de novos embriões,
De idéias trazidas no perfume do ar,
Nas cores das flores, no pólen alérgico
Que irrita, ataca e congestiona.
Tempo da ansiedade de desejos renovados
De sonhos esboçados.
A primavera é claro, já havia se instalado.
Impaciente, cheirosa, colorida, prazerosa.
Insetos zumbiam e pássaros se aninhavam.
Expectativas no ar, pura eletricidade,
Contagiante como o amor novo,
Repleto de suspiros, sorrisos.
Coração adolescente. Inibido.
Dias de céu azul, claro e límpido,
Seguidos de chuva ocasional.
Precisava celebrar a transição,
O aparente retorno da vida,
A natureza que acorda,
Que desperta a libido de insetos,
Moluscos, mamíferos e flores.
Para não falar de nossos amores.
Tudo abençoado pela chuva,
Ou rápida queda d’água,
Que muito mais que casual,
Sedimenta a fecundação,
Ajuda na fertilização,
Serve de mediação
Entre o nada e o novo,
Entre o pólen e a flor.
É o meio do amor,
A mão divina,
A sorte descrita por Darwin.

© Ladyce West,  2006, Rio de Janeiro

2/9/2006

26

de
novembro

Samambaias

 

 

Na pedra molhada à margem do riacho,
Onde o limo verde sobe e se expande,
Na sombra fria, úmida e escura
Batizada por cascata bem cantante,
Samambaias nascem presas nas alturas,
Vestem e cobrem a pedra íngreme e nua
Entornando suas frondes muito verdes
Para a água do rio que descende.
Farfalham ao vento, choronas, reluzentes,
Sarongues naturais em movimento.


© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro

25

de
novembro

Na neblina espessa da manhã

 

Lesmas de jardim.  Foto:  Robin Rosetta

Oregon State University.

 

Na neblina espessa da manhã,
Antes de o sol tentar aparecer,
O silêncio predomina no jardim.
Dois amantes abraçados se enroscam
E se beijam e se completam sem pudor.

Na calada da noite se encontraram
Seduziram um ao outro com ardor
E dançaram em ciranda singular.
No processo, suados e sem fôlego,
Molhados pela ânsia do amor,
Escolhem juntos, de comum acordo,
Local único, bem na aba do telhado.

Por algum tempo se tocam de mansinho,
Mostrando um ao outro seus talentos.
Até que juntos, apaixonados, enlouquecidos,
Tramam longo cordão viscoso e liso
Que até parece um cordão umbilical.
Deslizam nesta corrente gelatinosa,
Sedosa, lustrosa e pegajosa,
Que na ânsia da paixão, o amor teceu.
E abraçados, confiantes no destino,
Com estilo eles se jogam no abismo,
Em salto mortal que a paixão lhes preparou.
Tudo indica que desafiam a natureza,
A gravidade, o tempo e as leis de física.
Calorosos se abraçam e se entrelaçam,
Formando um só corpo pendurado,
Balançando no beiral do meu telhado.

E ao clímax deste encontro sedutor,
Os dois hermafroditas do jardim,
Lesmas grandes, cinzas e pintadas,
Produzem um espetáculo flutuante,
Espasmo, nuvem densa, balão de amor,
Um orgasmo que mais parece flor,
No grito mudo de entrega e doação.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro

23

de
novembro

A grama úmida de orvalho

 

Natureza em festa.    Foto:  Ladyce West

A grama úmida de orvalho meus pés calcam
E lâminas verdes por entre os dedos sinto
Minha pele chora, sangra e se aglutina
À terra roxa, molhada, escura e rica.
A vida no jardim começa agora
Nas horas enevoadas da manhã.
Formigas, lesmas, mosquitos, joaninhas
Na árdua dança do trabalho avançam.
Sobem troncos, comem brotos, acham caminhos,
Voam, saltam, correm mas não brincam;
Sincronizados, um a um, eles se movem
No balé circular do dia a dia.
No fundo do jardim perto do córrego,
À sombra de arbustos e ao som da água.
Aranhas pernas-longas, quase visíveis
Se armam cautelosas e imóveis.
No centro do tecido perolado, que gota a gota,
A noite embelezou, a teia brilha e atrai qual jóia rara,
Decerto os vôos, olhos e asas mais incautos.
No chão, sob as folhas, à margem do regato,
Os sapos enchem o papo e se preparam:
Bocejos bem abertos escondem os golpes,
O alçapão, a língua, a gosma com que engolem:
Mosquitos, moscas, grilos e outros insetos.
Os pássaros nas copas sombreadas
Piam, pulam, voam, cantam animados,
E em vôos rastejantes ou empinados,
Pescam, fisgam, puxam, levam e roubam
No bico a minhoca, a semente, o fruto, o cupim alado.
Em rodopio, peito cheio, pés sangrando,
Braços abertos, giro e rodo, rolo e entonteço.
Embaraço meus cabelos com os galhos,
Decoro minha face com pitangas
E comungo da manhã abençoada,
Feliz por estar viva e neste mundo.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro
28/8/2006

23

de
novembro

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22

de
novembro

Um besouro gigante

 

 

Besouro, 1505, Albrecht Durer (1471-1528), aquarela,

The Getty Museum, USA.

Um besouro gigante, escaravelho errante,
Chocou-se de encontro à porta:
Um som surdo e abafado,
Como soluço magoado,
Alarmante.
Caiu no chão de cerâmica
E logo se levantou,
Cauteloso, destemido, obstinado.
Andou.

Reconheceu o terreno,
Delineou a varanda,
Ignorando as feridas
E sua asa de banda.
Mostrou-se eficaz sentinela.
Mediu o perímetro local,
Examinou a área
Uma, duas, cem vezes,
Para saber se defender
Em caso de inimigo mortal.

Veio tragado no vento,
Empurrado, sem vida, exaurido.
Fisgado no anel externo
De novo fenômeno temporal:
Um grande tufão tropical
Que se enroscava,
Em marcha lenta,
Violenta e assassina,
Sobre o Atlântico sul,
Além das duzentas milhas.
Voou nas asas no tempo.
E ao relento girou,
Rodopiou, circulou
Em gigante corrupio
Por cima do mar aberto,
Gélido, muito frio,
De icebergs cruzando
Como errantes navegantes,
A superfície criada
No nosso forno comum,
Por descaso universal.

Veio rolando, girando,
Como a própria folha seca
Que sua cor imitava:
Presente da natureza,
Para sobrevivência
Face a inimigo letal.
Que ironia!
Tornou-se simplesmente
Uma vítima recente,
Do efeito estufa,
No hemisfério austral.

E assim marchou lentamente,
Ferido, cansado, triste,
Sem forças mas altaneiro,
Até o último momento
Quando parou sobranceiro,
E expirou no cantinho,
De pernas voltadas pro céu.
Foi encontrado — num repente,
Por formigas diligentes,
Saídas de um pequeno vão,
Entre o ralo e batente.

A morte lhe veio digna.
Lutou até quando pode.
Veio do sul do Brasil
Para morrer com estilo,
Estirado de papo pro ar
Numa varanda à beira-mar.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro.

19/11/06

 

21

de
novembro

A chuva fez azul nosso horizonte

 

Foto: Ladyce West, 2006

A chuva fez azul nosso horizonte.
Pintou no vale a cor da esperança.
Encheu de anêmonas, miosótis, margaridas,
Do campo aberto, ao sopé do monte.
Brotaram pintassilgos e abelhas.
No rio, a cada curva um jatobá.
No cheiro do capim ao sol ardente
Paravam insetos, lagartos e até o ar.
Na sombra escura o gado se perfila,
Debaixo de mangueiras generosas,
E espera em silêncio sonolento
O alívio do calor. Passam-se as horas.
Ao sinal distante da capela na aldeia,
Quando o sol se apaga atrás da serra,
As nuvens, uma a uma, se enfileiram.
Primeiro, brancas, alegres, arredondadas,
Depois cinzas, sem forma e pesadas.
Acomodam-se, ao sul, entre montanhas.
E qual ninhada de cachorros desmamada,
Que luta, reclama e se aquieta ’inda faminta
Com roncos e rugidos passam a noite.
O vento as nina…  Mas ao brilho de relâmpago
Fugaz, recomeça o murmúrio no horizonte.
Qual relógio mecânico e em tempo,
As nuvens acordam o sol sem cerimônia,
E em prantos limpam bem o firmamento,
Para de novo azularem o horizonte.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro
28/8/06

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