À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

28

de
janeiro

O prazer de viver

 

 

Foto: Lascaux

 

Quem primeiro decidiu comer um caracol?
Quem descobriu a trufa e a carne no siri?
Quem na lufa-lufa abriu uma ostra,
Encontrou uma  pérola à mostra?
Que antecessor nosso, faminto, esquálido,
Descobriu quais cogumelos comer?
Teria morrido ou só desfalecido?
Quantos de nossos avós: nossa linhagem,
Humanos de diferentes origens,
Se envenenaram?  Com desespero ou coragem?
À cata da janta, para manter, fortalecer
Seus corpos minguados, doentes, arados.
Quem sobreviveu, como aprendeu?
Caracóis são venenosos: têm que regurgitar
E evacuar antes que possamos comê-los.
Um décimo dos caranguejos são comestíveis.
Quem achou estes crustáceos irresistíveis,
Saboreou-os sem medo?
São todas iguarias refinadas.  Caras.  Sofisticadas.
Não são encontradas em qualquer caserna ou taberna.
Graças ao sacrifício do homem das cavernas?

Verdadeira iguaria é o bisão,
Principal figura das pinturas nas grutas.
Verdadeira iguaria é o mamão, 
A maçã, o figo, a uva, qualquer das frutas.
Não aparecem todas no Jardim do Éden?
Elas vêm no tamanho certo de consumo,
Em embalagens de fácil manuseio,
As frutas foram os primeiros insumos,
Produtos com design perfeito. 
Só a maçã pegou grande má fama,
Já pela manhã, complicou toda trama,
Expulsando o primeiro casal do Paraíso
Depois de lhes ter  dado o primeiro sorriso.
E levou-os a ter que plantar para comer…
Mas trouxe com ela o prazer de viver!

© Ladyce West, 2007 Rio de Janeiro

27

de
janeiro

Fazenda Don Giovanni

 

Foto: www.vinhosnet.com.br

 

Refúgio serrano de imigrante italiano
Dedicado à apicultura, à vinicultura
E a um soberbo orquidário,
A Fazenda Don Giovanni encerra
No cafundó da serra, um eldorado.  
O próprio retrato do  imaginário
Do sonho europeu de centenários:
O controle total sobre a natureza e a terra.
Estrada barrenta, molhada,  esbucarada,
Mantida pelo governo estadual
Passa frente ao portão principal.
Seu descaso fala da corrupção.
No entanto, passado o portão,
O caminho asfaltado, até o topo aveludado, 
Foi plantado de cada lado com vistosos arbustos, 
Que floridos cercam e amenizam
A superfície negra e dura do caminho.
Ao longe, pomares semitropicais,
Plantados regularmente, alinhados
Nas colinas por trás do monte
De onde a  casa domina. 
Um lago para pesca, à imitação da natureza
Serve de ante-sala,  lugar de seleção,
Entre os bem-vindos e os não.
Pois é protegido por marrecos territoriais,
Que em marcha rápida e berros dissonantes,
Saúdam os intrusos, os convidados, os visitantes –
Todo e qualquer  recém chegado, mais eficientes
Que cães de guarda, que policiais de patentes.
Além do lago videiras contorcidas
Com poucas e pequenas folhas tenras
Cada qual atada à própria estaca,
Sobem dispostas em fileiras, ordeiras,
O aclive suave do terreno.
O solo fora dividido em faixas paralelas,
Uma colcha de retalhos, espacial.
É a natureza meridional dominada,
Metodicamente subordinada,
Adquirindo ares europeus
Corrompendo a lei caótica do agreste tropical.

© Ladyce West, 2007,  Rio de Janeiro

25

de
janeiro

Os canários de D. Vanda

 

 

 

A Jacques Prévert

Os canários de D. Vanda,
Professora de piano no Leblon,
Eram juízes incorruptíveis e imparciais.
Trilavam, chilreavam e cantavam
Quando ouviam lá de fora,
Das gaiolas na varanda,
Nossos exercícios de escalas — se  corretos 
Equilibrando moedas nos dorsos das nossas mãos,
Para manter, em qualquer acorde, a correta posição.
 
Eram canários belgas.
Mas agiam como pardais.
Eletrônicos.
Pipilavam felizes, ao longo da melodia,
Ouvindo uma boa execução.
Chiavam a cada erro de velocidade
Ou de tom. 
Para eles não havia perdão.
Atônitos,
Paravam suas modulações,
Calavam os trinados,
Espantados com as aberrações
De nossos dedos mal treinados.
Seu silêncio era apupo, verdadeira corriola.
 
O prazer de seus cantos poliglotas,
Do corruchiar ligeiro de suas notas,
É parola dos que mantém
Passarinhos em gaiola.
Aves,  para voar foram feitas…
Trazem notícias alvissareiras,
Cantam melodias festeiras,
Nos galhos das pitangueiras.
Foram feitas também
Para alegrar os caminhos,
Para tecer os seus ninhos e colorir o horizonte.
Sem que o homem as amedronte.
Para isto precisam de tudo que lhes pertence:
O ar, o céu, os galhos, as flores, as sementes.

© Ladyce West, 2007,  Rio de Janeiro

13

de
janeiro

Bandeja de madeira

 

 

 

Comprei uma bandeja de madeira,
No mercado de usados da cidade.
O preço alto, verdadeiro assalto,
Testava a minha vontade…
Invocada reclamei:
Preço muito apimentado!
O feirante desfiou então,
A ladainha da ocasião:
Uma cascata de palavras
E de muitas abobrinhas.
Listadas de um modo simples
Em fileira, memorizada,
Uma tabuada de dados,
Sem nexo e sem sentido,
Qual jovem guia turístico,
Treinado para repetir
Sem nenhuma compreensão,
História de monumentos,
Batalhas, guerra ou ação.
Um rol de características,
Uma lista de preciosismos,
Que turistas escutam em vão.
No caso do comerciante,
Era manobra astuta, 
Artimanha obstrucionista,
Inspirada na política,
Do partido oposicionista,
Com a intenção de impedir 
Barganhas, regateio ou pechincha.
Mas não me dei por vencida
E esbocei, na medida, 
Uma ensaiada choradeira
De compradora matreira,
Desconfiada confessa.
Mas para meu desagrado,
A manobra desta vez,
Não deu  nenhum resultado.
E o vendedor perturbado,
Não se fazendo de rogado,
Disse em português claro:
O preço é este e está acabado!
Era esperteza, eu sabia.
Manha de ressabiado
Recalque de gato escaldado.
Experiente e esperta,
Também lhe disse umas tantas,
Questionei ainda uma vez
Os dados da tal bandeja
Que sabia muito bem
Não ser uma antigüidade.
Mas, minha senhora veja,
Já não se faz trabalho
Detalhado como este.
Marqueteria finíssima,
Olhe  a delicadeza!
Deste desenho aqui em cima!
Mantive meu ar incrédulo
De pessoa que conhece:
Reclamei do acabamento,
Das alças, das bordas, do centro,
Do verniz barato  —  opaco.
Não sou caloteiro!
Nem tampouco pirateio.
A Sra. pode confirmar
Nos antiquários da cidade!
Vai ver que é coisa boa,
Que tem uma certa idade!
Pus-me a andar, dando o fora,
No velho ardil de negócios
Fazendo-lhe acreditar
Que era facil ir embora.
Ele veio correndo atrás,
É vintage, minha senhora,
É  vintage,  repetia!
Como se a palavra,
A denominação,
A expressão estrangeira,
Respondesse às perguntas
Corriqueiras que lhe fiz.
Mas parei.  E voltei.  
Queria muito a bandeja
Rica em marqueteria.
Não pode ser, eu dizia,
Eu me lembro destas bandejas,
Destas lembranças para turistas,
Vendidas nas barraquinhas
Da Quinta da Boa Vista…
De súbito ele parou.
De cima abaixo me olhou.
E puxando lá do fundo
De sua sabedoria,  perguntou:
– Mas, quantos anos a senhora tem?

Num breve momento de pausa,
Disse para mim mesma:
Que história!  Traída pela memória! 
Olhei para a bandeja de novo
E ainda, uma vez mais …

E paguei.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro

 

5

de
janeiro

Querem me vender um sítio em Piraí

 

Cena do Interior, 1981
Armando Vianna ( RJ, 1897-  RJ,1992)
Aquarela. Assinada e datada, cd.
Coleção Particular. Rio de Janeiro.

Foto: Ladyce West

Querem me vender um sítio em Piraí:
" Excelente oportunidade, verdadeira bagatela,
Uma banalidade para terra e alojamento
De boa utilidade. Não é esparrela, nem barbaridade,
Herdade igual a esta, eu mesmo, nunca vi!”
Diz-me o corretor, mostrando-me o croqui,
As fotos, os papéis, o que achou preciso,
Para me convencer a visitar e, quem sabe, comprar 
Uma pequena porção, uma quota,
Uma ação, do meu próprio paraíso.

Não sou avessa a uma casa de campo.
Muito pelo contrário.  Eu também gostaria
De lá  guardar meus amigos e livros.
Mas não me venham com casas modernas,
De madeira ou tijolos, com piscina olímpica,
Churrasqueira e sauna que me cozinhe os miolos.
Campo de futebol, de vôlei e salão de festas.
Porteira fechada com gado leiteiro e pomar de kiwi.
"E já vem com caseiro,  cozinheiro e faxineiro!
Que mais a senhora pode querer por aqui?"
Quem pensa que sou?  Que quero um clube,
Uma casa de festas, taverna, hospedaria?
"A senhora é perspicaz!  Já que tocou no assunto…
Com pouco investimento transformaria este sítio
Num pequeno hotel, num motel, num lugar hospitaleiro
Que poderia ainda lhe dar muito dinheiro!"
Genuíno e autêntico, pensei, mas um grande abacaxi.
Meu canto de repouso tem que ser verdadeiro,
Não pode ser estalagem que abrigue forasteiros,
Desordeiros, estrangeiros como qualquer pardieiro.

A minha casa de campo, meu lugar de reclusão,
Tem que ser de estuque, caiado, sem ostentação,
Com telhas vermelhas e pintura descascada. 
Não será um sobrado, mas de um andar só,
Com partes muradas pedindo reparos,
Portão de madeira com dobradiça a chiar,
Escondida de todos,  lá no cafundó.
Buganvílias deitadas por cima do muro,
Coqueiros num canto e fruto maduro
Das árvores frutíferas que plantarei no futuro.
O caminho, prefiro ao gosto francês,
De cascalho fininho, de terra e areia.
Diversos cantinhos também pras galinhas,
Duas vacas leiteiras e um gato maltês
Que toque piano e fale português.
Quero um refúgio encantado, bem tropical,
Com o carinho e o gosto da terra natal:
Com oitis, juritis, bem-te-vis, colibris,
Lambaris e caquis, jabutis, sapotis.
Não deixando faltar,  certamente, os sacis.
Por que, então,  teria voltado pr’aqui?
Teria ficado em qualquer lugar por aí,
Onde não há sambaquis, quatis ou zumbis.
Meu motivo, no entanto, comprometedor,
Não foi racional, só emocional:
Foi querer me cercar do calor tropical
Que só os que o deixam lhe dão valor.
Afinal,
Não há nada melhor que amor com calor.

Janeiro 2007

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

1

de
janeiro

Primeiro Dia

 

In dies meliora.  Emblema 45.
Andrea Alciato [1492-1550]
Emblematum libellus, 1522

Nascimento do ano,   primeiro dia.
Visto-me de verde como a Esperança.
Sorrio como criança que vê bola,
Ou  balanço e antecipa a alegria,  
Projetando um futuro,  próximo,  feliz.

Somos todos crianças no primeiro dia do ano. 
Um dia especial,  de folga universal,
Em que jovens e velhos,  aqui e acolá,  sonham.
Indiscriminadamente.   Contentes.
Outra vez.    Mais uma vez.    Talvez…

© Ladyce West,  2007, Rio de Janeiro

 

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