À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

18

de
fevereiro

Carnaval e Second Life

 

Foto: Ladyce West.

 

Não consigo prever o futuro.
Quando em apuros,
Não jogo cartas, nem búzios.
Não recebo mensagens do além,
De ninguém.
Não sou futuróloga, nem parapsicóloga. 
Na bolsa de ações não palpito uma alta:
O conhecimento de empresas ainda me falta.
Tampouco na bolsa de futuros faço dinheiro,
Informação intramuros pode e dá cativeiro.

Mas como em terra de cegos
quem tem um olho é rei;
Hoje, me perguntei:
O que irá acontecer com o Carnaval
Aqui do lado austral do planeta,
Depois de Second Life?
Que interesse terá alguém, no futuro,
De vestir a baiana, a jardineira, o tirolês?  
Que sonho ainda precisará sonhar?
Não haverá mais papel para atuar.
Nem por dinheiro, se durante o ano inteiro,
Teve a oportunidade de representar,
A arbitrariedade de escolher,
A comodidade de agir,
A credulidade incólume
De uma vida diferente,
Consistente, envolvente.
Uma vida sobressalente.
A famosa segunda chance
Que não bate duas vezes à mesma porta.

Para que servirá o Carnaval, se existir durante o ano,
A oportunidade singular de se ter ao alcance,
Muito além do que oferece o cotidiano?
Num único lugar: performance e romance.

Será que a fantasia do Carnaval
Perderá seu papel principal
No imaginário brasileiro?
Perderemos o hábito por inteiro?
De sermos por três dias aquilo que não somos:
Membros da Corte da escola de samba e Rei Momo.
A fantasia coletiva, transformativa, transgressiva
Deixará de ser subversiva, televisiva, substantiva.

[17/02/2007 Sábado de Carnaval]

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

10

de
fevereiro

Folha seca

 

Minha avó colecionava flores e folhas interessantes. 
Pressionava-as em ângulos por entre as páginas,
Da História de Portugal: dez fólios azuis, nas estantes.
O Chagas, de: “vá lá consultar o Chagas!...”
Eram volumes ilustrados, letras e páginas douradas,
Soldados engalanados, com fardas bem festonadas,
Mantendo vivos Urracas, Mafaldas, Sanchos e Afonsos,
Nos primórdios do reino de Guimarães.

Nunca cheguei a ler estes volumes que ainda trago comigo.
Acredito ser projeto prematuro.  Melhor deixá-lo pro futuro.
Para a cadeira de balanço, chimarrão na varanda e descanso.
Por enquanto toco a vida ignorante — perigo acabar no jazigo–
Com conhecimento medíocre diante da história lusitana. 
Mas voltei a manuseá-los em meio ao afã da semana.

Em suas páginas, muitas flores.  Lembranças de velhos amores,
Dos tempos em que meninas delicadas viviam aos vapores. 
Um jasmim do Cabo, jasmim dobrado, amassado.
Residente do alpendre na casa de minha bisavó na Tijuca.
Um cravo branco talvez?  Sua lividez, o tempo mudou.
Orelhas de elefante, uma avenca.  Miosótis, margaridas,
Dezenas de amores-perfeitos colecionados às escondidas. 
Fitinhas de papel seda amarradas aos cabinhos
Rotulavam a ocasião como os velhos bentinhos.
Noivado de Eulália, visita a Tia Isaltina.
Sitio das Andorinhas, jan. 1896.  São Lourenço.
Septembro, Baptizado de Thereza Christina.

Procurei ansiosa por uma folha.  Só.  Sem data, sem nome.
De uma amendoeira?   Sem sobrenome, sem codinome.
Mas deve ter sido de um verde vistoso.  Lustroso, venturoso.
Vigoroso.  Suas dimensões traíam a origem tropical,
De folha carnuda, abundante, reluzente.  Como a do cacau.
Hoje só lhe sobravam os veios e o contorno.   Era uma renda.
Mostrava o talo, a haste, as nervuras, o raiado do esqueleto.
Delicada e frágil, lembrava a beleza do passado.   Uma prenda.
Trazia vivo o desenho que a separara das demais folhas, no quintal.
Frágil e bela.   Essência única do que fora sua beleza no passado.
Quantos anos mais sobreviveria desta forma?   Era a sombra final…
Guardada, rotulada pelo momento em que deu vida à vida do cotidiano.

Procurei-a porque lembrou-me minha mãe,  saída ontem do hospital.
Pequenina, ossos à mostra.   Quase transparente, translúcida.
Veias e tendões.   A pele flácida traz à memória outras eras.
De vigor, de abundância.  De ser amada.   Hoje é referimento.
Minha mãe, renda humana.   Bela, amada, se esvaecendo.

© Ladyce West,  fevereiro 2007,  Rio de Janeiro.

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