À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

29

de
abril

Op arte

 

Victor Vasarely, Ambigu- B, 1970

 

A tristeza do adeus eterno
Que lhe dou a cada dia de doença,
Se acomoda solitária em meu âmago,
Pela lágrima marejante que não desce;
A que engulo pelos olhos em descrença.

É minha goteira interna sem conserto,
Que longe dos olhos de um bom bombeiro,
Se transforma em gigantesca infiltração.
E na calada, sem que sinta o seu poder,
Me enfraquece, aos poucos e sem rodeios.

Quando noto, o meu caleidoscópio,
De pequenas alegrias em pedaços coloridos,
Perdeu o tom, as cores deslumbrantes,
Que pra sobreviver, remanejo e reajusto,
E que chacoalho, para poder tocar pra frente.

Hoje entendo melhor a op – arte.
Os trabalhos de Halsey e Vasarely.
O mundo dos caquinhos coloridos
Que em turbilhão nos envolvem iludidos
E nos levam rodopiantes ao futuro.

Hoje os vidrinhos em pedaços reluzentes
Que se espelham na minha luneta mágica,
Colorindo o dia a dia de esperança,
Andam apagados, desbotados, amarelados.
De Cinemascope voltei ao preto e branco.


© Ladyce West,  Rio de Janeiro, 2007

1

de
abril

PRESENÇA INVISÍVEL

Hoje repito aqui o primeiro poema que publiquei neste blog: Presença Invisível.

Razão: o poema é dedicado à obra do escultor gaúcho João Bez Batti, cujos trabalhos estiveram expostos no Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro no final de 2006 e início de 2007.

Na semana passada tive o imenso prazer de receber um telefonema do artista que mora no Rio Grande do Sul. Fiquei particularmente emocionada com sua declaração de que havia gostado do poema e pedia que pudesse colocá-lo no livro que está sendo organizado sobre a sua obra.

Realmente seu trabalho com as grandes pedras de rio me emocionou. Fica aqui, pública, mais uma vez a minha apreciação pelo trabalho de Bez Batti, pela poesia tridimensional que ele descobre na pedra e nos revela.

 

 

Presença Invisível

[ À obra do escultor gaúcho João Bez Batti ]

Senti a presença invisível
De mãos grossas, calejadas,
Que acariciaram a pedra,
O basalto negro
Ou vermelho,
Ou até mesmo o mármore.

Constatei mesmerizada
Que trouxeram à superfície
A essência;
Que libertaram, a Michelangelo,
A forma presa no seixo,
O orgânico escondido,
Inerte,
Meio-solto,
Quase-aprisionado.

Mãos que revelaram os escravos encapsulados,
Seres encarcerados no mesozóico,
Como se, conhecendo o desastre de Pompéia
Depois do escarro fulminante do Vesúvio,
Soubessem encontrar:
O cactos florescente, o cágado,
A abóbora moranga.
Caracóis.
E bólidos petrificados.

Estas mãos, que brincam
Sedutoramente
Com o poder divino,
Conhecem o conteúdo,
A alma invisível da pedra.
Descobrem o cascalho gaúcho,
Chocam os grandes ovos de rio,
E parem os seres cativos nas pedras,
Como Eva o tinha sido na costela de Adão.

E o que surpreende: estas mãos,
Que revelam o coração do basalto
Regurgitado pela Terra,
Lixado pelas águas,
Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,
São humanas.
Mãos peãs.
Agraciadas pela arte da divinação,
Que brincando de Deus,
Mostram o divino em todos nós.

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro

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