À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

31

de
maio

Não tenho medo da morte

 

Edward Munch,  A Dança da Vida, 1899-1900, óleo/tela, Galeria Nacional de Oslo.

 

Não tenho medo da morte,
De sua foice afiada,
Que já veio anunciada,
No orgasmo de nossos pais.
No dia da fecundação
Sinalizamos pra este norte,
Sem mesmo sairmos do cais.

Não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Viver é montanha-russa
Em parque de diversões,
Repleto de agitações, abscisões,
Afeições, malsinações, revisões.
Enquanto combatemos a morte,
Em duelo, mano a mano,
Brigas e escaramuças,
Que nos deixam reconhecer
De longe, de uma boa légua,
As feições desta mal-amada,
Filha da noite, irmã do sono,
Que nunca chega a nos dar trégua.

Mas, não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Não quero é ficar de beijinhos,
De abraços e namoricos,
Em longa dança macabra,
De malmequer, bem-me-quer.
Em estúpido saçarico,
Bailarico por demais cruel.
Porque Ela é armadora infiel.
Difusora e distribuidora
Dos cortes mais dolorosos,
Das dores mais prolongadas,
De sofrimentos molestosos,
Que nos distribui às pancadas
Da ponta afiada do sabre.

Por isso não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Mas se pudesse escolher,
Como parar de viver,
Gostaria de sua vinda ágil,
Montada em cavalo alado
Pra que eu não ouvisse o tropel.
E que deixasse o burrico,
Com que às vezes se apresenta,
Velho, manco e muito artrítico,
Em casa ou num hotel.
Porque vê-lo se aproximar,
Devagar, trôpego e rígido,
É sofrimento demais!
Mesmo para esta pecadora…
Não, não me acho merecedora!

Que a morte venha de carreira,
Diligente, rápida e faceira,
E que me pegue de bobeira,
E me leve sem atrito,
Pro tal abrigo infinito,
Que tantos juram existir!
Porque para falar francamente,
Muito cuidado ou paparico
Nunca foi para o meu bico.

E é assim que eu caminho
Para quando nos encontrarmos.

© Ladyce West, Maio 2007, Rio de Janeiro

 

 

 

12

de
maio

Gestalt

 

 

 

As aulas de percepção visual
No primeiro ano da faculdade
Eram para mim um exercício em
frustração.
Nem sempre eu achava, de pronto,
A jovem escondida no desenho da velha;
Os camponeses, no camafeu do barbudo ancião.

Meus antolhos juvenis, revolucionários,
Extremistas, intolerantes
Eram redutíveis.  Eu não sabia.   Para mim
Havia uma única opção de visão:
a correta.
Orgulhosa,  levantava a bandeira radical,
Certa de que conhecia a verdade,
Quer na política ou na poética.
De uma rigidez maoísta, única,
Inabalável e indestrutível,
Chocava-me com a flexibilidade:
De pontos de vista e de atitudes.

Foi justamente na sala de aula,
Na cadeira de psicologia da percepção,
Que me liguei!   Pela primeira vez
Vi na radicalização, a inflexibilidade.
E como parecia limitante e agressiva!
Uma verdadeira doença auto-imune,
A artrite reumática da mente,
Que podia deformar qualquer um.

Desconfiei de que a camisa de força
Do radicalismo, me confinava.
Me impedia 
de  presteza,
De que num susto,  num átimo
Pudesse identificar  variações:
A ironia, a ambigüidade, a incerteza
Contidas numa  bem traçada linha.

Ontem me lembrei destas aulas,
Monótonas e enfadonhas.
E do desenho mais usado para explicá-las:
Aquele em que as imagens de uma velha
E a de uma jovem, podem ou não,
Se intercalarem no nosso cérebro,
Como verdadeiros pares
De conjunções alternativas,
Insubordinadas umas às outras.
Foi um flash,
Um minuto de sabedoria.
O verdadeiro
factóide.

A noite havia esfriado.
O corpo frágil e pequenino de minha mãe
Se encolhera na cama que lhe serve de ninho.
Calada e com imenso cuidado,
Coloquei-lhe uma fina manta
Por cima das que ali já a cobriam.
Trêmula, lembrando cada dia mais
um passarinho, uma codorna,
Seu corpo se ajeitou sonolento
Com um quase invisível sorriso,
E se acomodou confortavelmente
Na madrugada.

Naquele momento lembrei-me do desenho.
Sabia como minha mãe se sentia,
Pelas muitas vezes, em que tinha sido eu
A beneficiária de cuidado semelhante.
Ontem, no entanto, era eu quem lhe dava de volta
O que recebera inconsciente e confiante no passado.
Em mim estavam a jovem e a velha,  intercaladas,
Ligadas pelo mesmo traço,
Pela mesma linha ambígua e perfeita.


© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://ameiavoz.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.