À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

27

de
junho

Zodiaco

 

 

Com os discos do zodíaco girando,
Um ano novo nasceu para mim.
Assim disse minha amiga astróloga
Logo de manhã, telefonando,
Numa conversa sem fim.

Domingo é seu dia de anos:
Hora de examinar, no mapa astral,
A progressão dos planetas.
Quando nos encontramos?
Um ritual anual: a sorte desenhada na roleta.

Quem iria me importunar este ano?
Netuno, Saturno ou Urano?
Em que decanato viria o estrelato?
Mercúrio retrógrado: hora da espera.
Escorpião ascendente, ninguém tolera.

Oposição, junção, atração, disfunção.
Lua, Marte, Vênus, qualquer planeta,
Quem me ajudaria na missão, na ação,
No desenrolar do futuro, na resolução
Do acaso? O amanhã me faz xereta.

A fantasia de controle me domina:
Saber de antemão minha sina…
Afinal, quem não se encantaria?
É uma aposta, no obscuro, no meu porvir.
De probabilidades indecifráveis, o advir.

© Ladyce West, 2007 Rio de Janeiro.

20

de
junho

Copacabana

 

 

 Copacabana, vista do Leme.  Foto:  Ladyce West

Copacabana é um mistério.
Verdadeiro magistério
Dos princípios democratas.
Aqui preconceitos são difíceis
Até para os aristocratas.

Coquetel humano
Do Leme ao Posto Seis,
Desafia diplomata, magnata
E burocrata, com seu ritmo insano
Cadenciando a areia e a calçada.

Paraíso pros velhos, pros sem-teto,
Pro turista casual, de negócios ou sexual,
Pro intelectual, iletrado ou analfabeto.
Não é Praça Mauá repleta de marujos,
É bairro de óticas, farmácias e pés-sujos

Distinguiu-se pela audácia desde sua construção.
No meio das acácias de praia à beira-mar,
Era considerada por muitos: uma aberração!
E tinha salácia, vadiagem, libertinagem,
Concubinagem, mas não eram o único padrão.

Aqui vivem travestis, paparazzi e colibris,
Macumbeiros, cristãos, águas-vivas e zumbis.
Carolas, ricaços, crianças, favelados,
E há bingos da sorte, entre dois fortes.
O trânsito é caótico, mas a beleza exótica.

A areia que era branca, já não o é.
Tampouco limpas são as calçadas onduladas.
O milionário da cobertura é ladrão;
A prostituta de saia curta é menor.
Até o céu tem propaganda! De avião.

Foi difícil o ajuste a esta nova vida aqui.
O silêncio acabou, o ar limpo também.
Mas, aqui ninguém é refém de ninguém.
Diferente de outros bairros da cidade,
Aqui cada qual tem seu lugar na sociedade.

E, francamente, gosto muito desta pluralidade!

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

8

de
junho

Vai minha mãe querida

 

Vai, minha mãe querida,
Vai-te daqui desta vida,
Encontrar do outro lado,
Com os anjos no paraíso,
Os sorrisos e a paz
Que te faltaram aqui.

Vai-te, confiante e leve,
Livra-te para sempre
Das dolorosas correntes
Que te aprisionaram doente.
Vai, voa, sobe, brilha, relampeja!
Deixa para trás teus limites,
Que o corpo doído te prende.

Serás melhor recebida,
Por lá. Serás bem acolhida,
Compreendida, acudida.
Não te prendas aos diamantes terrenos.
Para onde caminhas, estes são pequenos,
De somenos valor.
Lá, brilharás pelo teu real teor.


Yonne Pompêo de Barros  ( 3/7/1925 -  8/6/2007)

© Ladyce West, 8/6/2007, Rio de Janeiro

3

de
junho

Mais um ano

 

Henri Matisse. Dança (I). Paris, Hôtel Biron, 1909. Óleo/tela, MOMA, Nova York. Doação de Nelson A. Rockefeller homenageando Alfred H. Barr, Jr.

 

Mais um ano,
Mais uma vela,
E com ela um sopro
De um desejo
Benfazejo.

Mais uma volta,
Mais um rodeio.
Na dança da vida,
Não há cirandeiro
Não há contravolta.

Na passagem do tempo
Na vertigem dos anos
Rodopiamos, giramos
Procurando um destino
Que acreditamos divino.

Mas no remoinho diário
Na inquietação, na confusão,
Contornando a agitação,
O auê, o fuzuê que é a vida,
Perco a noção de sentido.

Penso e assopro,
Mais uma vela se apaga,
E a mística fumaça sela
Meu desejo de vaga noção
De propósito ou intenção.

© Ladyce West, 03/06/2007, Rio de Janeiro.

3

de
junho

Peregrinação Soneto de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia… Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho… Puro e impuro…
Amor de velho adolescente… E tão
Sabendo a cinza e pêssego maduro…

Manuel Bandeira ( 1886 — 1968)

 

 

 

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