À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

26

de
novembro

Fino Acabamento

 

Faltam em mim o fino acabamento,
A sofisticação no gesto controlado,
A distante discrição de sentimento,
A emoção calma e moderada
Necessários para o julgamento
Para a consideração mais refinada
Do arranjo de flores recebido
De presente, organizado, arrumado,
Encarcerado na forma arredondada
E bem podada de uma esfera,
Pousada sobre um vaso de cristal.

Eram rosas de estufa, pobrezinhas,
Que nunca conheceram a liberdade,
Nem a chuva, nem o vento, nem o sol.
Suas vidas foram sempre manejadas
Por mangueiras, persianas e aerossol.
Nunca souberam o que era um arrebol,
Nem ouviram um pintassilgo ou rouxinol.
Eram vermelhas, pequeninas, quase em botão,
Naqueles moldes associados à paixão.
Mas, cortadas, amarradas e aramadas,
Entrelaçadas aos cabos de cedrinhos,
Sem folhas, hastes cortadas, sem espinhos,
Não poderiam representar nem se quisessem
O abandono, a entrega e o desalinho,
A burla, o traspasse da razão,
Essenciais para expressão desta emoção.

Sou mais rústica em gosto e acabamento.
Abro os braços sem pudor pros meus abraços.
E as emoções expressadas em meu rosto
Vêm impulsivas, rebeldes, a contragosto.
Não consigo me esquivar dos sentimentos,
Preferindo mergulhar num só momento
Na emoção que engolfa o coração
Desordenada, impulsionada, arrebatada.
Prefiro minhas flores variadas.
Parecendo terem sido coletadas
Num rebelde buquê, de sopetão.


© Ladyce West, Rio de Janeiro, Novembro de 2007

26

de
novembro

Distingo de Marília as mãos formosas BOCAGE

XXXI

De cima destas peanhas escabrosas
Que pouco a pouco as ondas têm minado,
Da lua com reflexo prateado
Distingo de Marília as mãos formosas.

Ah!  Que lindas que são, que melindrosas!
Sinto-me louco, sinto-me encantado;
Ah! Quando elas vos colhem lá no prado
Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!

Deuses! Céus!  Tudo o mais que tendes feito
Vendo tão belas mãos me dá desgosto;
Nada, onde elas estão, nada é perfeito.

Oh!  quem pudera uni-las ao meu rosto!
Quem pudera apertá-las no meu peito!
Dar-lhes mil beijos, e expirar de gosto.

Manuel Maria Barbosa du Bocage   (1765-1805)

23

de
novembro

Gugu

 

 

Enfaixaram minha mão esquerda.
Com desvelo.
Dos dedos ao cotovelo.
No registro,
Proibiram movimento,
Principalmente sinistro.
Duas semanas, sub-humanas.
Até sararem os ligamentos.
Daí em frente, adestramentos
Para voltar a lembrar dos movimentos.

Fiquei coto na canhota, embalsamada viva.
Braço engessado é símbolo de travessa meninota.
Na minha idade, no entanto, só o silicone
Me ajuda a não parecer velhota.
Por conta de tanta impotência,
De precisar de assistência
No vestir, banhar e pentear,
Lembrei-me ontem do Gugu,
Aquele bebê bonsai adotado por Popeye.
Que, sem pernas ou pés visíveis,
Se arrasta. E entusiasta,
Saboreia os hambúrgueres voadores do Dudu,
Quando e se estes se descolam do teto,
Por completo.

Não gosto de ser Gugu.

Novembro/ 2007

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2007

23

de
novembro

Relatório Lírico de Helio Pellegrino

 

Hoje sonhei contigo. Amanhã
Sonharei contigo. Depois de
Amanhã sonharei contigo, de
Novo. E novamente sonharei
Contigo, depois, e depois,
Enquanto gire a cor dos calendários.
Sonho contigo dia e noite. E te
Cumprimento, apenas, noite e
Dia, e te digo — dia e noite —
A palavras banais de todo o
Dia. Diariamente sofro a tua
Presença, de noite e de dia,
Em todas as horas do dia te
Sonho de noite, e pela noite
Me apareces como o dia — Carmen,
Rosa, poesia, macia flor, feita
De noite e de dia.

Hélio Pellegrino

1924 — 1988

 

20

de
novembro

Paisagem Serrana

Serra da Mantiqueira

 

Paisagem serrana com neblina,
Carregada de orvalho,
O sol cobre o pico mais alto
Com manto dourado, agasalho
Barroco, difundido nas igrejas mineiras.
Do mirante,
O esplendor da Serra da Mantiqueira.
Um lusco-fusco preguiçoso preenche o vale.
Nuvens errantes, chumaços de algodão,
Ainda se prendem nas serras, na junção
De montanhas. Na encosta exposta.
Um cheiro de terra umedecida ao relento
Chega sorrateiro na brisa da manhã.
Leva embora a madrugada e com ela
O ar nebuloso, impregnado d’água.
Aparecem, então, aqui e acolá,
Casebres de adobe em clareiras
Furtadas ao pau-ferro, ao jacarandá,
À canela, ao mogno, ao jequitibá.
É o cancro costumeiro, das meias-águas,
Da pobreza roceira.
É doença antiga da cordilheira,
Nutrida na ignorância, enraizada na penúria.
Contribui em silêncio para o aquecimento
Global. Resquício neocolonial. Injúria.
Aviltamento eleitoral.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro

 

NOTA: É com imenso prazer que informo que este poema foi um dos dez finalistas do V Concurso BAFAFA de Poesia 2007 — cujo tema foi O AQUECIMENTO GLOBAL.    O concurso de âmbito nacional teve como jurados os poetas: Cairo Trindade,  Luiz Fernando Prôa e Victor Farinha.  No dia 28 de novembro a entrega dos prêmios será feita às 19:30 horas, no Café do Museu da República.   Agradeço desde já à comissão julgadora e a todos os meus leitores que têm muito me honrado com seus comentários e incentivo.

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