26
de
novembro
Fino Acabamento

Faltam em mim o fino acabamento,
A sofisticação no gesto controlado,
A distante discrição de sentimento,
A emoção calma e moderada
Necessários para o julgamento
Para a consideração mais refinada
Do arranjo de flores recebido
De presente, organizado, arrumado,
Encarcerado na forma arredondada
E bem podada de uma esfera,
Pousada sobre um vaso de cristal.
Eram rosas de estufa, pobrezinhas,
Que nunca conheceram a liberdade,
Nem a chuva, nem o vento, nem o sol.
Suas vidas foram sempre manejadas
Por mangueiras, persianas e aerossol.
Nunca souberam o que era um arrebol,
Nem ouviram um pintassilgo ou rouxinol.
Eram vermelhas, pequeninas, quase em botão,
Naqueles moldes associados à paixão.
Mas, cortadas, amarradas e aramadas,
Entrelaçadas aos cabos de cedrinhos,
Sem folhas, hastes cortadas, sem espinhos,
Não poderiam representar nem se quisessem
O abandono, a entrega e o desalinho,
A burla, o traspasse da razão,
Essenciais para expressão desta emoção.
Sou mais rústica em gosto e acabamento.
Abro os braços sem pudor pros meus abraços.
E as emoções expressadas em meu rosto
Vêm impulsivas, rebeldes, a contragosto.
Não consigo me esquivar dos sentimentos,
Preferindo mergulhar num só momento
Na emoção que engolfa o coração
Desordenada, impulsionada, arrebatada.
Prefiro minhas flores variadas.
Parecendo terem sido coletadas
Num rebelde buquê, de sopetão.
© Ladyce West, Rio de Janeiro, Novembro de 2007





