
Meditação do Tempo 2 , s.d. *
Adílson Santos ( Poções, Bahia, 1944 )
Óleo sobre tela, 90 x 70 cm
Há tempos esta imagem me assombra:
Deixa de lastro um gosto amargo
De terror que não me larga.
O sofrimento, a dúvida, o vacilo,
O nano segundo do pavor de sua carga,
Foram em geral mantidos em sigilo,
Mostrando o pai tranqüilo, com seu arco,
Herói-galã, hipnotizado no seu marco,
Imolador-progenitor como Abraão,
Infrator e defensor de atuação,
Olhos fixos na maçã, seu talismã.
Os séculos de lenda se calaram
Sobre o segundo protagonista desta história,
Que aflito, vítima de grito preso e inaudito,
Vê-se só, sem asilo ou escapatória,
O horror, capturado na garganta,
Mudo, no momento maldito e infinito
Em que a febre de paúra se agiganta.
A palidez, a nudez de seu tormento,
Representada nos olhos sem alento,
Mostra o pavor interno, sutil e freudiano.
Trai a confiança descrita pelo mito,
O heroísmo explícito e solícito.
É o retrato da vítima calada, do réu,
Da ovelha imolada a contragosto,
Ciente do acaso, das variações,
Das incertezas do pai, Guilherme Tell.
Estampado em seus olhos, em seu rosto,
Está o relâmpago infinito da dúvida,
Exposto claro, explícito, pela brecha
No lençol que o protegia do evento.
Foi tão rápido quanto o vôo dessa flecha,
Mas o fugaz foi congelado no momento.
© Ladyce West, 2/3/2008, Rio de Janeiro
* Quadro leiloado no Rio de Janeiro em abril de 2007,
Valdir Teixeira, Leiloeiro Público