À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

22

de
julho

A Borboleta Amarela — da série Pequetita

 

A Borboleta Amarela

A borboleta amarela
pousou no beiral da janela.
Abriu suas asas listradas
cansadas de muitas estradas
e dormiu.

Ficou um bom tempo parada
até se sentir renovada.
Limpando as patinhas da frente,
jogou-se pelo muro bem rente
e seguiu.

Lá foi ela pelos ares
saltitando em ziguezagues.
Pousou na flor do caqui,
pulou daqui para ali
e partiu.

Por entre a grade de ferro, passou.
Por trás dos ramos floridos, voou.
Parou no banco da praça,
eis que um gato lhe ameaça…
e fugiu.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

22

de
julho

Quem é? — da série Pequetita

 

Quem é
aquele homem alto,
que me abraça forte,
com muito carinho?
Quem vem me acudir
num salto,
que me deseja sorte
e me chama filhinho?

Meu Pai —
é seu nome completo,
Não tem sobrenome,
nem para o carteiro.
Com ele, eu me sinto repleto,
ando bem ereto, cheio de afeto.
Pra mim ele é valioso,
Se dá por inteiro,
este homem discreto.
Amoroso, muito circunspecto,
ele vai à luta,
samurai guerreiro.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

Homenagem ao Dia dos Pais.

2

de
março

O Vacilo

Meditação do Tempo 2 , s.d.  *
Adílson Santos ( Poções, Bahia, 1944 )
Óleo sobre tela, 90 x 70 cm

 

Há tempos esta imagem me assombra:
Deixa de lastro um gosto amargo
De terror que não me larga.
O sofrimento, a dúvida, o vacilo,
O nano segundo do pavor de sua carga,
Foram em geral mantidos em sigilo,
Mostrando o pai tranqüilo, com seu arco,
Herói-galã, hipnotizado no seu marco,
Imolador-progenitor como Abraão,
Infrator e defensor de atuação,
Olhos fixos na maçã, seu talismã.

Os séculos de lenda se calaram
Sobre o segundo protagonista desta história,
Que aflito, vítima de grito preso e inaudito,
Vê-se só, sem asilo ou escapatória,
O horror, capturado na garganta,
Mudo, no momento maldito e infinito
Em que a febre de paúra se agiganta.
A palidez, a nudez de seu tormento,
Representada nos olhos sem alento,
Mostra o pavor interno, sutil e freudiano.
Trai a confiança descrita pelo mito,
O heroísmo explícito e solícito.

É o retrato da vítima calada, do réu,
Da ovelha imolada a contragosto,
Ciente do acaso, das variações,
Das incertezas do pai, Guilherme Tell.
Estampado em seus olhos,  em seu rosto,
Está o relâmpago infinito da dúvida,
Exposto claro, explícito,  pela brecha
No lençol que o protegia do evento.
Foi tão rápido quanto o vôo dessa flecha,
Mas o fugaz foi congelado no momento.

© Ladyce West, 2/3/2008, Rio de Janeiro

 

 

* Quadro leiloado no Rio de Janeiro em abril de 2007, 
   Valdir Teixeira, Leiloeiro Público

13

de
fevereiro

O Mangueiral

 

A ilha verde-maduro
Frente ao capim-melado,
Anunciava o mangueiral:
Um escuro manchão largo,
Florão pardo,
Incrustado
Em alcatifa acetinada,
Verdejante,
Bezerrada,
Acantoada nas entranhas
Das montanhas de Vera Cruz.

De perto, o aroma úmido,
Prenhe,
Estagnado.
Pesado e doce,
Apodrido e embriagante,
Chegava com a brisa do campo;
Impregnado
Nas barbas-de-bode –
Sementes pulverizadas ao vento.
Voava.
Era o cheiro das Carlotinhas douradas,
Pintadas —
Rubricas escuras
Nas cascas maduras.
Escondidas, caídas, obscuras,
Semeadas ao léu.
Troféu de morcegos, araras,
Periquitos, passarinhos e micos.

Debaixo das copas cerradas
Ao lado dos troncos torcidos,
O perfume asfixiante.
Ofegante.
Repugnante e fascinante.
E se entranhava nos cabelos,
Nas roupas,
Nas palmas de nossas mãos,
Ao espremer suas polpas.
À moda dos micos macruros,
Também nós, em orgia,
Batendo, chacoalhando os ramos —
Sôfregos —
Íamos colher os ovos dourados,
Os frutos melados.
Comê-los, chupá-los, devorá-los.
Arrancávamos suas peles com os dentes,
Vorazes.
À procura de um espasmo iludente,
Orgasmo nubente
E nutriente.

Só então sentíamos ter chegado à fazenda.

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro

31

de
dezembro

ESTRELA GUIA

 

Apagou-se a minha estrela-guia.
Seu brilho diminuiu
Aos poucos, no dia a dia.
Hoje,
Não agüentou o corpo;
A alma tampouco se deteve.

Aleluia! Aleluia!
Cantaram os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Gritaram em festa e escarcéu!

Foi a minha estrela-guia
Na infância, na adolescência;
Do berço à idade adulta.
Trazia um apoio de mãe
De amiga, de tia
Dado em silêncio,
Como quem ausculta,
E sem consulta
Recomenda e encaminha.

Aleluia! Aleluia!
Cantam hoje os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Hoje há festa com escarcéu!

Foi minha confidente,
Minha guia, meu modelo,
Mostrou-me a diretriz
Da vida,
Com seu silêncio eloqüente,
A opinião segura,
Aparente.
Tal qual sua assinatura,
Que fazia firme,
E de postura coerente.

Aleluia! Aleluia!
Cantam hoje os espíritos no céu!
Aleluia! Aleluia!
Vai ter festa com escarcéu!

Felizes os que a conheceram
Como eu,
Aqueles que a amaram
Como eu,
E a quem ela amou,
Como eu.

Por isso há festa no céu!
Os espíritos se alegram,
Vai chegar gente querida.
Enquanto nós tocamos a vida,
Pensando no beleléu,
Sentimentos jogados ao léu.

Aleluia! Aleluia!
Que se faça grande escarcéu,
Com fogos iluminando o céu!
Aleluia!

Neyde Pompêo de Barros Kanto 15/12/1928 – 31/12/2007

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2007.

26

de
novembro

Fino Acabamento

 

Faltam em mim o fino acabamento,
A sofisticação no gesto controlado,
A distante discrição de sentimento,
A emoção calma e moderada
Necessários para o julgamento
Para a consideração mais refinada
Do arranjo de flores recebido
De presente, organizado, arrumado,
Encarcerado na forma arredondada
E bem podada de uma esfera,
Pousada sobre um vaso de cristal.

Eram rosas de estufa, pobrezinhas,
Que nunca conheceram a liberdade,
Nem a chuva, nem o vento, nem o sol.
Suas vidas foram sempre manejadas
Por mangueiras, persianas e aerossol.
Nunca souberam o que era um arrebol,
Nem ouviram um pintassilgo ou rouxinol.
Eram vermelhas, pequeninas, quase em botão,
Naqueles moldes associados à paixão.
Mas, cortadas, amarradas e aramadas,
Entrelaçadas aos cabos de cedrinhos,
Sem folhas, hastes cortadas, sem espinhos,
Não poderiam representar nem se quisessem
O abandono, a entrega e o desalinho,
A burla, o traspasse da razão,
Essenciais para expressão desta emoção.

Sou mais rústica em gosto e acabamento.
Abro os braços sem pudor pros meus abraços.
E as emoções expressadas em meu rosto
Vêm impulsivas, rebeldes, a contragosto.
Não consigo me esquivar dos sentimentos,
Preferindo mergulhar num só momento
Na emoção que engolfa o coração
Desordenada, impulsionada, arrebatada.
Prefiro minhas flores variadas.
Parecendo terem sido coletadas
Num rebelde buquê, de sopetão.


© Ladyce West, Rio de Janeiro, Novembro de 2007

23

de
novembro

Gugu

 

 

Enfaixaram minha mão esquerda.
Com desvelo.
Dos dedos ao cotovelo.
No registro,
Proibiram movimento,
Principalmente sinistro.
Duas semanas, sub-humanas.
Até sararem os ligamentos.
Daí em frente, adestramentos
Para voltar a lembrar dos movimentos.

Fiquei coto na canhota, embalsamada viva.
Braço engessado é símbolo de travessa meninota.
Na minha idade, no entanto, só o silicone
Me ajuda a não parecer velhota.
Por conta de tanta impotência,
De precisar de assistência
No vestir, banhar e pentear,
Lembrei-me ontem do Gugu,
Aquele bebê bonsai adotado por Popeye.
Que, sem pernas ou pés visíveis,
Se arrasta. E entusiasta,
Saboreia os hambúrgueres voadores do Dudu,
Quando e se estes se descolam do teto,
Por completo.

Não gosto de ser Gugu.

Novembro/ 2007

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2007

20

de
novembro

Paisagem Serrana

Serra da Mantiqueira

 

Paisagem serrana com neblina,
Carregada de orvalho,
O sol cobre o pico mais alto
Com manto dourado, agasalho
Barroco, difundido nas igrejas mineiras.
Do mirante,
O esplendor da Serra da Mantiqueira.
Um lusco-fusco preguiçoso preenche o vale.
Nuvens errantes, chumaços de algodão,
Ainda se prendem nas serras, na junção
De montanhas. Na encosta exposta.
Um cheiro de terra umedecida ao relento
Chega sorrateiro na brisa da manhã.
Leva embora a madrugada e com ela
O ar nebuloso, impregnado d’água.
Aparecem, então, aqui e acolá,
Casebres de adobe em clareiras
Furtadas ao pau-ferro, ao jacarandá,
À canela, ao mogno, ao jequitibá.
É o cancro costumeiro, das meias-águas,
Da pobreza roceira.
É doença antiga da cordilheira,
Nutrida na ignorância, enraizada na penúria.
Contribui em silêncio para o aquecimento
Global. Resquício neocolonial. Injúria.
Aviltamento eleitoral.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro

 

NOTA: É com imenso prazer que informo que este poema foi um dos dez finalistas do V Concurso BAFAFA de Poesia 2007 — cujo tema foi O AQUECIMENTO GLOBAL.    O concurso de âmbito nacional teve como jurados os poetas: Cairo Trindade,  Luiz Fernando Prôa e Victor Farinha.  No dia 28 de novembro a entrega dos prêmios será feita às 19:30 horas, no Café do Museu da República.   Agradeço desde já à comissão julgadora e a todos os meus leitores que têm muito me honrado com seus comentários e incentivo.

1

de
outubro

Paisagem Tropical

 

 

Foto Ladyce West

 

Há uma sensação de conforto, de consolo,
Um esteio emocional, a impressão de tudo certo,
Em seu lugar, que tutela minha tranqüilidade,
Que me escora, ampara e gera uma plenitude interior
Quando vejo uma paisagem tropical.

Pode ser simples, a paisagem. Não preciso de viagem.
Uma olhadela roubada à margem de uma granja, de um sítio;
Um fiapo, uma nesga de verde colorida já me saciam,
Mesmo que vindos na janela errante do carro em movimento.
Eles me bastam.

Um resto de muro por entre plantas exuberantes me afaga.
O aroma exótico, da flor escamada, alcachofra colorida, me afoga.
E protegida pela profusão de verdes densos e abundantes,
De folhas carnudas e amantes, sem espinhos beligerantes
Eu me sacio da fome e da sede do exílio.

É pouco o de que preciso para alento.
Eu me sustento na paz interna, na graça plena,
No resguardo refletido no suspiro profundo,
Quando um horto florestal me invade e consola
E sem aval cala meus pensamentos galopantes.

Sou amante desta paz existencial
Cantada no zumbido dos insetos ao meio dia,
Embutida no calor e no torpor que me invadem,
Na quietude que me preenche a mente, o corpo
E qual torrente me leva em corrupio de errância.

Não importa os insetos ambientes: as aranhas,
Lagartas, mosquitos, outros entes. No balanço da rede
Desabrocho interiormente, no abandono letárgico,
Sem ânsia, desfrutado à sombra dos coqueiros.
É, trago Macunaíma tatuado no meu peito.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

1

de
julho

PAN otimismo

 

Tenho o PAN na cabeça, e confesso:
Às vezes duvido de seu sucesso…
Mas ser carioca é ser otimista,
Ainda que jamais seja governista!
Acredito que as obras acabarão a tempo
Sem maiores contratempos.
E tudo parecerá perfeito,
Fazendo jus à paisagem,
Que embora inútil,
É pano de fundo sem defeito.

Mesmo apressados, nos sairemos bem.
É só caminharmos com o pé direito,
Depois usarmos o esquerdo em tandem;
Altaneiros e sobranceiros,
Deixarmos de estar insatisfeitos
Mesmo com a falta de dinheiro.
Porque, para a maioria dos estrangeiros,
Que competem aqui neste inverno,
O brasileiro é o primo rico, o país moderno.
Somos exemplo e não subalternos.

Tenho fé. Tenho orgulho. Tudo dará certo.
Principalmente agora que os jogos estão perto.
Ainda seremos hospitaleiros e risonhos,
E não só caloteiros, violentos e medonhos.
É verdade que não sei mais como é a cara da gente.
Do carioca. Éramos especiais em outros tempos,
Quando ainda saíamos da toca, desprotegidos,
Inocentes, transparentes, ebulientes e decentes.
Com humor irreverente nós seduzíamos:
Eram o olhar matreiro e o sorriso freqüente.

Aquele ritmo de andar que era só da gente,
Continua. E a pitada de malícia, de coreografia
Também. Quem conseguia bulir, intervir,
Fazer transgredir o funcionário, o guarda de trânsito,
O ambulante, pedindo por esta única exceção,
Por esta última vez: “Da sua boa vontade,
Da sua celeridade, desta sua caridade
”…
Continua aqui. Ainda não perdemos o rebolado.
Estamos só acuados, enjaulados, amedrontados.
É hora da trégua.  A cidade precisa lavar a égua!

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

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