À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

26

de
novembro

Distingo de Marília as mãos formosas BOCAGE

XXXI

De cima destas peanhas escabrosas
Que pouco a pouco as ondas têm minado,
Da lua com reflexo prateado
Distingo de Marília as mãos formosas.

Ah!  Que lindas que são, que melindrosas!
Sinto-me louco, sinto-me encantado;
Ah! Quando elas vos colhem lá no prado
Nem vós, lírios, brilhais, nem vós, ó rosas!

Deuses! Céus!  Tudo o mais que tendes feito
Vendo tão belas mãos me dá desgosto;
Nada, onde elas estão, nada é perfeito.

Oh!  quem pudera uni-las ao meu rosto!
Quem pudera apertá-las no meu peito!
Dar-lhes mil beijos, e expirar de gosto.

Manuel Maria Barbosa du Bocage   (1765-1805)

23

de
novembro

Relatório Lírico de Helio Pellegrino

 

Hoje sonhei contigo. Amanhã
Sonharei contigo. Depois de
Amanhã sonharei contigo, de
Novo. E novamente sonharei
Contigo, depois, e depois,
Enquanto gire a cor dos calendários.
Sonho contigo dia e noite. E te
Cumprimento, apenas, noite e
Dia, e te digo — dia e noite —
A palavras banais de todo o
Dia. Diariamente sofro a tua
Presença, de noite e de dia,
Em todas as horas do dia te
Sonho de noite, e pela noite
Me apareces como o dia — Carmen,
Rosa, poesia, macia flor, feita
De noite e de dia.

Hélio Pellegrino

1924 — 1988

 

3

de
junho

Peregrinação Soneto de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia… Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho… Puro e impuro…
Amor de velho adolescente… E tão
Sabendo a cinza e pêssego maduro…

Manuel Bandeira ( 1886 — 1968)

 

 

 

9

de
dezembro

Arvore

 

Foto:  Ladyce West,   N. Sra. da Paz,  RJ

 

ÁRVORE

Quanto silêncio em tua raiz,
árvore, respiraste,
para chegares a ousar
a doçura que ousaste;
quanta nortada sacudiu,
na fúria louca de águas bravas,
tua galharia, até que houvesse
esta flor calma em tua haste.

 

Helio Pelegrino

* B H, 1924 — + 23/3/1988

4

de
dezembro

22 de janeiro

 

 

             No alto, cintado de nuvens
Relampejantes, ao morrer do dia,
Emerge, sobranceiro a tudo, o píncaro
                     Da serrania.

Vejo-o daqui do hotel desta cidade
Onde cheguei há pouco. Olho-o e medito.
Lá se ficou, toda incomodidade,
Com seu pó, seu calor e seus rumores,
A grande Capital; aqui, silêncio, flores,
O ar puro e este contato com o infinito.

Poema de abertura de
" Cheiro de Flor (notas de um veranista)"
POESIAS - 4ª Série — 1928

Antônio Mariano Alberto de Oliveira

*  RJ  28/4/ 1859  —  + RJ  19/1/ 1937.

2

de
dezembro

Extraído de JUCA MULATO de Menotti del Picchia

 

……………………………………………….

Juca olhou para a terra e a terra muda e fria
Pela voz do silêncio ela também dizia:

“Juca Mulato és meu! Não fujas que eu te sigo…
Onde estejam os teus pés, eu estarei contigo
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera…
Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.
Por isso o que vale ir, fugitivo e a esmo,
buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento…
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.
Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos…
E fica, que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!”

Extraído de : “A Voz das Coisas”,
do poema JUCA MULATO de Menotti del Picchia ,
publicado em 1917.

Paulo Menotti del Picchia,
* São Paulo, 20/3/1892  –  + São Paulo 23/8/1988

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