À Meia Voz

Blog de Poesia: poemas de autoria de Ladyce West. Poesia brasileira contemporânea. Blog de poesia ilustrado com fotos.

23

de
novembro

Relatório Lírico de Helio Pellegrino

 

Hoje sonhei contigo. Amanhã
Sonharei contigo. Depois de
Amanhã sonharei contigo, de
Novo. E novamente sonharei
Contigo, depois, e depois,
Enquanto gire a cor dos calendários.
Sonho contigo dia e noite. E te
Cumprimento, apenas, noite e
Dia, e te digo — dia e noite —
A palavras banais de todo o
Dia. Diariamente sofro a tua
Presença, de noite e de dia,
Em todas as horas do dia te
Sonho de noite, e pela noite
Me apareces como o dia — Carmen,
Rosa, poesia, macia flor, feita
De noite e de dia.

Hélio Pellegrino

1924 — 1988

 

20

de
novembro

Paisagem Serrana

Serra da Mantiqueira

 

Paisagem serrana com neblina,
Carregada de orvalho,
O sol cobre o pico mais alto
Com manto dourado, agasalho
Barroco, difundido nas igrejas mineiras.
Do mirante,
O esplendor da Serra da Mantiqueira.
Um lusco-fusco preguiçoso preenche o vale.
Nuvens errantes, chumaços de algodão,
Ainda se prendem nas serras, na junção
De montanhas. Na encosta exposta.
Um cheiro de terra umedecida ao relento
Chega sorrateiro na brisa da manhã.
Leva embora a madrugada e com ela
O ar nebuloso, impregnado d’água.
Aparecem, então, aqui e acolá,
Casebres de adobe em clareiras
Furtadas ao pau-ferro, ao jacarandá,
À canela, ao mogno, ao jequitibá.
É o cancro costumeiro, das meias-águas,
Da pobreza roceira.
É doença antiga da cordilheira,
Nutrida na ignorância, enraizada na penúria.
Contribui em silêncio para o aquecimento
Global. Resquício neocolonial. Injúria.
Aviltamento eleitoral.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro

 

NOTA: É com imenso prazer que informo que este poema foi um dos dez finalistas do V Concurso BAFAFA de Poesia 2007 — cujo tema foi O AQUECIMENTO GLOBAL.    O concurso de âmbito nacional teve como jurados os poetas: Cairo Trindade,  Luiz Fernando Prôa e Victor Farinha.  No dia 28 de novembro a entrega dos prêmios será feita às 19:30 horas, no Café do Museu da República.   Agradeço desde já à comissão julgadora e a todos os meus leitores que têm muito me honrado com seus comentários e incentivo.

1

de
outubro

Paisagem Tropical

 

 

Foto Ladyce West

 

Há uma sensação de conforto, de consolo,
Um esteio emocional, a impressão de tudo certo,
Em seu lugar, que tutela minha tranqüilidade,
Que me escora, ampara e gera uma plenitude interior
Quando vejo uma paisagem tropical.

Pode ser simples, a paisagem. Não preciso de viagem.
Uma olhadela roubada à margem de uma granja, de um sítio;
Um fiapo, uma nesga de verde colorida já me saciam,
Mesmo que vindos na janela errante do carro em movimento.
Eles me bastam.

Um resto de muro por entre plantas exuberantes me afaga.
O aroma exótico, da flor escamada, alcachofra colorida, me afoga.
E protegida pela profusão de verdes densos e abundantes,
De folhas carnudas e amantes, sem espinhos beligerantes
Eu me sacio da fome e da sede do exílio.

É pouco o de que preciso para alento.
Eu me sustento na paz interna, na graça plena,
No resguardo refletido no suspiro profundo,
Quando um horto florestal me invade e consola
E sem aval cala meus pensamentos galopantes.

Sou amante desta paz existencial
Cantada no zumbido dos insetos ao meio dia,
Embutida no calor e no torpor que me invadem,
Na quietude que me preenche a mente, o corpo
E qual torrente me leva em corrupio de errância.

Não importa os insetos ambientes: as aranhas,
Lagartas, mosquitos, outros entes. No balanço da rede
Desabrocho interiormente, no abandono letárgico,
Sem ânsia, desfrutado à sombra dos coqueiros.
É, trago Macunaíma tatuado no meu peito.

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

1

de
julho

PAN otimismo

 

Tenho o PAN na cabeça, e confesso:
Às vezes duvido de seu sucesso…
Mas ser carioca é ser otimista,
Ainda que jamais seja governista!
Acredito que as obras acabarão a tempo
Sem maiores contratempos.
E tudo parecerá perfeito,
Fazendo jus à paisagem,
Que embora inútil,
É pano de fundo sem defeito.

Mesmo apressados, nos sairemos bem.
É só caminharmos com o pé direito,
Depois usarmos o esquerdo em tandem;
Altaneiros e sobranceiros,
Deixarmos de estar insatisfeitos
Mesmo com a falta de dinheiro.
Porque, para a maioria dos estrangeiros,
Que competem aqui neste inverno,
O brasileiro é o primo rico, o país moderno.
Somos exemplo e não subalternos.

Tenho fé. Tenho orgulho. Tudo dará certo.
Principalmente agora que os jogos estão perto.
Ainda seremos hospitaleiros e risonhos,
E não só caloteiros, violentos e medonhos.
É verdade que não sei mais como é a cara da gente.
Do carioca. Éramos especiais em outros tempos,
Quando ainda saíamos da toca, desprotegidos,
Inocentes, transparentes, ebulientes e decentes.
Com humor irreverente nós seduzíamos:
Eram o olhar matreiro e o sorriso freqüente.

Aquele ritmo de andar que era só da gente,
Continua. E a pitada de malícia, de coreografia
Também. Quem conseguia bulir, intervir,
Fazer transgredir o funcionário, o guarda de trânsito,
O ambulante, pedindo por esta única exceção,
Por esta última vez: “Da sua boa vontade,
Da sua celeridade, desta sua caridade
”…
Continua aqui. Ainda não perdemos o rebolado.
Estamos só acuados, enjaulados, amedrontados.
É hora da trégua.  A cidade precisa lavar a égua!

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

27

de
junho

Zodiaco

 

 

Com os discos do zodíaco girando,
Um ano novo nasceu para mim.
Assim disse minha amiga astróloga
Logo de manhã, telefonando,
Numa conversa sem fim.

Domingo é seu dia de anos:
Hora de examinar, no mapa astral,
A progressão dos planetas.
Quando nos encontramos?
Um ritual anual: a sorte desenhada na roleta.

Quem iria me importunar este ano?
Netuno, Saturno ou Urano?
Em que decanato viria o estrelato?
Mercúrio retrógrado: hora da espera.
Escorpião ascendente, ninguém tolera.

Oposição, junção, atração, disfunção.
Lua, Marte, Vênus, qualquer planeta,
Quem me ajudaria na missão, na ação,
No desenrolar do futuro, na resolução
Do acaso? O amanhã me faz xereta.

A fantasia de controle me domina:
Saber de antemão minha sina…
Afinal, quem não se encantaria?
É uma aposta, no obscuro, no meu porvir.
De probabilidades indecifráveis, o advir.

© Ladyce West, 2007 Rio de Janeiro.

20

de
junho

Copacabana

 

 

 Copacabana, vista do Leme.  Foto:  Ladyce West

Copacabana é um mistério.
Verdadeiro magistério
Dos princípios democratas.
Aqui preconceitos são difíceis
Até para os aristocratas.

Coquetel humano
Do Leme ao Posto Seis,
Desafia diplomata, magnata
E burocrata, com seu ritmo insano
Cadenciando a areia e a calçada.

Paraíso pros velhos, pros sem-teto,
Pro turista casual, de negócios ou sexual,
Pro intelectual, iletrado ou analfabeto.
Não é Praça Mauá repleta de marujos,
É bairro de óticas, farmácias e pés-sujos

Distinguiu-se pela audácia desde sua construção.
No meio das acácias de praia à beira-mar,
Era considerada por muitos: uma aberração!
E tinha salácia, vadiagem, libertinagem,
Concubinagem, mas não eram o único padrão.

Aqui vivem travestis, paparazzi e colibris,
Macumbeiros, cristãos, águas-vivas e zumbis.
Carolas, ricaços, crianças, favelados,
E há bingos da sorte, entre dois fortes.
O trânsito é caótico, mas a beleza exótica.

A areia que era branca, já não o é.
Tampouco limpas são as calçadas onduladas.
O milionário da cobertura é ladrão;
A prostituta de saia curta é menor.
Até o céu tem propaganda! De avião.

Foi difícil o ajuste a esta nova vida aqui.
O silêncio acabou, o ar limpo também.
Mas, aqui ninguém é refém de ninguém.
Diferente de outros bairros da cidade,
Aqui cada qual tem seu lugar na sociedade.

E, francamente, gosto muito desta pluralidade!

© Ladyce West, 2007, Rio de Janeiro.

8

de
junho

Vai minha mãe querida

 

Vai, minha mãe querida,
Vai-te daqui desta vida,
Encontrar do outro lado,
Com os anjos no paraíso,
Os sorrisos e a paz
Que te faltaram aqui.

Vai-te, confiante e leve,
Livra-te para sempre
Das dolorosas correntes
Que te aprisionaram doente.
Vai, voa, sobe, brilha, relampeja!
Deixa para trás teus limites,
Que o corpo doído te prende.

Serás melhor recebida,
Por lá. Serás bem acolhida,
Compreendida, acudida.
Não te prendas aos diamantes terrenos.
Para onde caminhas, estes são pequenos,
De somenos valor.
Lá, brilharás pelo teu real teor.


Yonne Pompêo de Barros  ( 3/7/1925 -  8/6/2007)

© Ladyce West, 8/6/2007, Rio de Janeiro

3

de
junho

Mais um ano

 

Henri Matisse. Dança (I). Paris, Hôtel Biron, 1909. Óleo/tela, MOMA, Nova York. Doação de Nelson A. Rockefeller homenageando Alfred H. Barr, Jr.

 

Mais um ano,
Mais uma vela,
E com ela um sopro
De um desejo
Benfazejo.

Mais uma volta,
Mais um rodeio.
Na dança da vida,
Não há cirandeiro
Não há contravolta.

Na passagem do tempo
Na vertigem dos anos
Rodopiamos, giramos
Procurando um destino
Que acreditamos divino.

Mas no remoinho diário
Na inquietação, na confusão,
Contornando a agitação,
O auê, o fuzuê que é a vida,
Perco a noção de sentido.

Penso e assopro,
Mais uma vela se apaga,
E a mística fumaça sela
Meu desejo de vaga noção
De propósito ou intenção.

© Ladyce West, 03/06/2007, Rio de Janeiro.

3

de
junho

Peregrinação Soneto de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia… Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho… Puro e impuro…
Amor de velho adolescente… E tão
Sabendo a cinza e pêssego maduro…

Manuel Bandeira ( 1886 — 1968)

 

 

 

31

de
maio

Não tenho medo da morte

 

Edward Munch,  A Dança da Vida, 1899-1900, óleo/tela, Galeria Nacional de Oslo.

 

Não tenho medo da morte,
De sua foice afiada,
Que já veio anunciada,
No orgasmo de nossos pais.
No dia da fecundação
Sinalizamos pra este norte,
Sem mesmo sairmos do cais.

Não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Viver é montanha-russa
Em parque de diversões,
Repleto de agitações, abscisões,
Afeições, malsinações, revisões.
Enquanto combatemos a morte,
Em duelo, mano a mano,
Brigas e escaramuças,
Que nos deixam reconhecer
De longe, de uma boa légua,
As feições desta mal-amada,
Filha da noite, irmã do sono,
Que nunca chega a nos dar trégua.

Mas, não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Não quero é ficar de beijinhos,
De abraços e namoricos,
Em longa dança macabra,
De malmequer, bem-me-quer.
Em estúpido saçarico,
Bailarico por demais cruel.
Porque Ela é armadora infiel.
Difusora e distribuidora
Dos cortes mais dolorosos,
Das dores mais prolongadas,
De sofrimentos molestosos,
Que nos distribui às pancadas
Da ponta afiada do sabre.

Por isso não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.

Mas se pudesse escolher,
Como parar de viver,
Gostaria de sua vinda ágil,
Montada em cavalo alado
Pra que eu não ouvisse o tropel.
E que deixasse o burrico,
Com que às vezes se apresenta,
Velho, manco e muito artrítico,
Em casa ou num hotel.
Porque vê-lo se aproximar,
Devagar, trôpego e rígido,
É sofrimento demais!
Mesmo para esta pecadora…
Não, não me acho merecedora!

Que a morte venha de carreira,
Diligente, rápida e faceira,
E que me pegue de bobeira,
E me leve sem atrito,
Pro tal abrigo infinito,
Que tantos juram existir!
Porque para falar francamente,
Muito cuidado ou paparico
Nunca foi para o meu bico.

E é assim que eu caminho
Para quando nos encontrarmos.

© Ladyce West, Maio 2007, Rio de Janeiro

 

 

 

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