
Edward Munch, A Dança da Vida, 1899-1900, óleo/tela, Galeria Nacional de Oslo.
Não tenho medo da morte,
De sua foice afiada,
Que já veio anunciada,
No orgasmo de nossos pais.
No dia da fecundação
Sinalizamos pra este norte,
Sem mesmo sairmos do cais.
Não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.
Viver é montanha-russa
Em parque de diversões,
Repleto de agitações, abscisões,
Afeições, malsinações, revisões.
Enquanto combatemos a morte,
Em duelo, mano a mano,
Brigas e escaramuças,
Que nos deixam reconhecer
De longe, de uma boa légua,
As feições desta mal-amada,
Filha da noite, irmã do sono,
Que nunca chega a nos dar trégua.
Mas, não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.
Não quero é ficar de beijinhos,
De abraços e namoricos,
Em longa dança macabra,
De malmequer, bem-me-quer.
Em estúpido saçarico,
Bailarico por demais cruel.
Porque Ela é armadora infiel.
Difusora e distribuidora
Dos cortes mais dolorosos,
Das dores mais prolongadas,
De sofrimentos molestosos,
Que nos distribui às pancadas
Da ponta afiada do sabre.
Por isso não me amedronta o caminho
Antes de nos encontrarmos.
Mas se pudesse escolher,
Como parar de viver,
Gostaria de sua vinda ágil,
Montada em cavalo alado
Pra que eu não ouvisse o tropel.
E que deixasse o burrico,
Com que às vezes se apresenta,
Velho, manco e muito artrítico,
Em casa ou num hotel.
Porque vê-lo se aproximar,
Devagar, trôpego e rígido,
É sofrimento demais!
Mesmo para esta pecadora…
Não, não me acho merecedora!
Que a morte venha de carreira,
Diligente, rápida e faceira,
E que me pegue de bobeira,
E me leve sem atrito,
Pro tal abrigo infinito,
Que tantos juram existir!
Porque para falar francamente,
Muito cuidado ou paparico
Nunca foi para o meu bico.
E é assim que eu caminho
Para quando nos encontrarmos.
© Ladyce West, Maio 2007, Rio de Janeiro